Pesquisar no site
Eventos
Agenda 2010
Eventos Anteriores
Educação Continuada
Mudanças tratamento da TB
Artigos em destaque
Atlas de Tuberculose
Curso de Tuberculose
Aulas para Consulta
Publicações - Pulmão RJ
Último número
Números anteriores
A 1ª revista Pulmão RJ
Suplementos
Atualizações Temáticas
Instruções para artigos
Utilidade Pública
Asma
Doenças do Sono
Tuberculose
Tabagismo
Links
Links e afins


Acesse nosso Twitter.
Clique na imagem acima

Educação Continuada - Artigos em destaque

Voltar

CONDUTA DIAGNÓSTICA PARA ESCLARECIMENTO DA CAUSA DE SÍNDROME DE DERRAME PLEURAL

Cyro Teixeira da Silva Junior, Gilberto Perez Cardoso, Elizabeth Giestal de Araujo

Trabalho realizado em conjunto pelos Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências Médicas e Neurociências da Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil


   O derrame pleural é síndrome clínica que pode acompanhar diversas doenças, quer primárias da pleura, quer secundárias a lesões do parênquima pulmonar ou a enfermidades sistêmicas. Não há uma estimativa segura sobre a sua incidência na população e a causa é muito variável, dependendo da prevalência das doenças na região estudada.
   A literatura mundial, mesmo, sendo nos dias de hoje, o paciente exaustivamente investigado, ainda relata que em 11 a 20% dos casos a causa fica sem ser estabelecida.
   O diagnóstico sindrômico de derrame pleural é realizado pela análise do quadro clínico (anamnese e exame fisico), por imagem (convencional e/ou especializada) e, eventualmente, pela cintilografia.
   São necessários para o diagnóstico da causa da síndrome do derrame pleural, os procedimentos de toracocentese, biópsia pleural fechada com agulha (CPB), toracoscopia e toracotomia. Atualmente, utilizamos o seguinte roteiro para os procedimentos: inicialmente uma toracocentese isolada; se não obtiver diagnóstico da causa uma segunda toracocentese e uma primeira CPB; caso persista a ausência de diagnóstico pleuroscopia (toracoscopia) e/ou toracotomia.
   Os materiais para exame, resultantes dos procedimentos acima, são: líquido pleural, fragmentos de pleura parietal e/ou visceral e parênquima pulmonar.
   O pleurograma é a denominação do roteiro utilizado para investigação diagnóstica da síndrome do derrame pleural. São realizados os exames mínimos necessários, no soro e no líquido pleural, colheitados, para esclarecimento da causa da síndrome de derrame pleural. Antes de cada procedimento, o paciente deve instruído da natureza do procedimento e benefícios. Antes da realização dos procedimentos e exames do pleurograma, cada paciente deve ser submetido a uma acurada história clínica e exame por imagem convencional e/ou especializado.
   Cada material antes de realização de exames, deve ser caracterizado quanto à data e procedimento de obtenção, acompanhado de dados clínicos, identificação do paciente, idade, sexo e cor, data do início e evolução da doença, história terapêutica e condições mórbidas associadas. Cada material deve ser enviado ao laboratório, em frasco esterilizado, bem vedado, e em menor espaço de tempo possível.
   O líquido pleural deve ser transportado sob refrigeração, para exames realizados fora da unidade de saúde onde é realizada os procedimentos, embora dados de literatura provem, estatisticamente, apenas para exames bioquímicos que líquido pleural pode ficar por vinte e quatro horas em temperatura ambiente, sem refrigeração.
   No soro, assim como no líquido pleural, devem ser realizados os seguintes exames bioquímicos: glicose, desidrogenase lática (DLH), proteínas totais e albumina. Esses exames são incluídos no pleurograma convencional porque fazem parte de critérios bioquímicos para classificar liquido pleural transudativo ou exsudativo. Colesterol total e bilirrubina total também podem ser considerados. Quando tais exames não podem ser realizados, dentro de 24 horas, o soro deve ser retirado do refrigerador e estocado em freezer a – 20 graus C. A dosagem de glicose deve ser realizada em frasco estéril com três gotas de fluoreto de sódio (NaF) para 2 mL de material puncionado.
   O líquido pleural é material que deve ser retirado dos pacientes, não necessariamente em Centro Cirúrgico, através do procedimento de toracocentese, com agulha de calibre 16, após tricotomia (quando indicado), antissepsia ampla da pele do hemitórax com éter e posteriormente álcool iodado, anestesia local da pele, subcutâneo, periósteo da costela adjacente, músculos intercostais, nervos subcostais e pleura parietal, no local delimitado por campos esterilizados.
   A anestesia local da toracocentese e biópsia pleural parietal são realizadas por infiltração, inicialmente com pequeno botão anestésico e sempre precedida de aspiração do êmbolo da seringa, afim de evitar sua introdução na corrente sanguínea. Dose máxima de 200 mg de lidocaína a 2%, sem vasoconstritor, para adultos com peso de aproximadamente 70 kg, através de agulha calibre 21.
   Local da toracocentese: intersessão de uma linha horizontal, passando pela base do apêndice xifóide, com uma linha vertical passando pela linha axilar média ou linha axilar posterior ou linha paravertebral do hemitórax correspondente ao derrame pleural, com o paciente sentado na mesa cirúrgica.

a) EXAMES BIOQUÍMICOS
Os exames bioquímicos no líquido pleural são os mesmos realizados no soro, que devem ser, simultaneamente, colheitados. Quando tais exames não podem ser realizados dentro de 24 horas, o líquido pleural centrifugado deve ser retirado do refrigerador e estocado em freezer a – 20 graus C. Todos os exames de bioquímica, no soro e no líquido pleural, mencionados anteriormente, com exceção da determinação de glicose, são realizados em frasco seco, estéril e sem anticoagulante.
Existe na literatura um trabalho, provando estatisticamente, que não é estritamente necessário colocação de NaF no frasco para dosagem de glicose no líquido pleural, assim como, não há necessidade de ressuspensão do coágulo para dosagem de proteínas.

b) MARCADORES TUMORAIS
No pleurograma convencional, dosamos o antígeno carcinoembrionário (CEA), geralmente pelo método de enzima-imunoensaio, e a enolase neurônio específica (NSE), geralmente pelo método de imunofluorometria a tempo resolvido. Exames realizados em frasco seco, estéril e sem anticoagulante.
 
c) EXAMES DE MICROBIOLOGIA
Exame direto para pesquisa de BAAR. Método: técnica de coloração de Kinyoun ou Ziehl-Neelsen, em líquido pleural citocentrifugado.
Cultura de Micobactérias. Método convencional, cultura realizada em meio sólido de Loewenstein e Jansen. Realizada em líquido pleural heparinizado (5 000 UI/10 mL), no momento da colheita para evitar a formação de coágulos, fato esse que aprisionaria os bacilos na rede de fibrina.
Exame direto para fungos, com uso de KOH a 20%. Cultura para fungos: meios Sabouraud e seletivo para fungos.
Coloração pelo método de Gram; cultura em meios convencionais para bactérias gram positivas e gram negativas; antibiograma.

d) LEUCOGRAMA
Leucometria total e diferencial. Método de coloração, com corante de Wright, após colheita do líquido pleural em frascos estéreis, contendo 3 gotas de EDTA por 5 mL de material. Método de contagem: hemocitômetro de Neubauer.
 
e) CITOPATOLOGIA CONVENCIONAL
Identificação de células neoplásicas e mesoteliais, com coloração pela técnica idealizada, em 1942, para citologia exfoliativa, do Dr. George N. Papanicolau, após fixação, no laboratório, em álcool etílico a 95%, do líquido pleural citocentrifugado ou macrocentrifugado. Colheita do material em frascos estéreis, contendo 5000 UI de heparina por 10 mL de material. Para proteção das amostras, no momento da colheita até serem enviadas ao laboratório, pode ser utilizado como pré-fixador o álcool etílico a 50%.
A citopatologia do líquido pleural compreende a análise de células naturalmente descamadas das superfícies pleurais, sendo avaliadas pelo seu aspecto morfológico, sendo também definidos padrões (critérios) de normalidade e alterações indicativas da existência de processos inflamatórios ou neoplásicos. Citometria de fluxo deve ser a análise escolhida em casos de suspeita de linfomas.
 
f) ADENOSINA DESAMINASE (ADA)
Líquido pleural colheitado em frasco seco, estéril e sem anticoagulante. Exame da ADA realizado no líquido pleural centrifugado, após descarte da celularidade. Pode ser reservado no refrigerador por 24 horas ou estocado no freezer a –20 graus C. Dosagem de atividade da enzima geralmente realizada pelo método colorimétrico de Giusti e Galanti, cujo kit deve ser desenvolvido e manipulado artesanalmente no laboratório. O kit vendido comercialmente não possui sensibilidade e especificidade para o diagnóstico de tuberculose pleural. Não deve ser utilizado.

g) EXAMES ESPECIAIS
Esses exames devem ser realizados sempre que necessários, no líquido pleural, para auxiliar no diagnóstico. Têm o propósito de confirmar determinada causa de uma doença não muito freqüente na unidade de saúde onde se trabalha ou para protocolos de projetos de pesquisa sobre síndrome do derrame pleural. Exemplo: marcadores de colagenoses, outros marcadores tumorais que não o CEA e a NSE (tais como CYFRA 21-1, CA 125, outros), pH, amilase, lípase, proteína C reativa titulada, interferon-gama, fator alfa de necrose tumoral e outros.
Lembrar que avaliação de pH no líquido pleural não deve ser realizada com fitas contidas em kits para medida de pH da urina. Avaliação sempre em aparelho de gasometria arterial com anticoagulante e condições técnicas clássicas para avaliação de pH do sangue.

MATERIAL: FRAGMENTOS DE BIÓPSIA DE PLEURA PARIETAL

   Material colheitado dos pacientes pelo procedimento de biópsia pleural parietal, com agulha técnica reusável, esterilizada antes do uso (a do tipo Cope é a mais utilizada); agulha essa de aço inoxidável. Comprimento 80 mm, calibre 0,30 mm, através de técnica convencional mencionada pioneiramente na literatura, por Cope em 1958.
   Deve ser mantida, nos pacientes, infiltração anestésica local realizada para o procedimento de toracocentese.
   Após realização das biópsias pleurais com agulha de Cope, um curativo oclusivo com pomada, contendo antibiótico (neomicina ou cloranfenicol) deve permaner por vinte e quatro horas no local da introdução da agulha.
   Os fragmentos pleurais obtidos, mínimo de três e máximo de cinco, em um único ou vários sítios torácicos, são armazenados em frascos de boca larga, contendo como fixador formol isotônico a 10%, antes de ser enviados para exame histopatológico.
   Geralmente a maioria dos laboratórios realizam somente exame histopatológico, pelo método convencional com coloração pela hematoxilina-eosina.
   Por possuir maior sensibilidade para o diagnóstico de tuberculose pleural, o cultivo de fragmento pleural, principalmente quando feito em meio líquido, pode er realizado. Neste caso, deve ser armazenado em solução de cloreto de sódio a 0,9% antes de ser enviado ao laboratório especializado.

CRITÉRIOS BIOQUÍMICOS PARA CLASSIFICAR TRANSUDATOS e EXSUDATOS

Critério de Light. Atualmente é critério mais utilizado. O líquido pleural será classificado como exsudato se possui pelo menos um dos seguintes critérios: 1. Proteínas totais do líquido pleural dividida pelas proteínas totais do soro maior do que 0,5; 2. DLH do líquido pleural dividida pela DLH do soro maior do que 0,6; 3. DLH pleural maior do que dois terços do limite superior do normal do valor do DLH sérico. Este critério possui 99,0% de sensibilidade para classificar corretamente o líquido pleural em exsudato.
Critério do gradiente de albumina. O valor da albumina do soro é subtraído do valor da albumina do líquido pleural. Valores maiores do que 1,2 mg/dL classificam um líquido pleural transudativo com 97,0 % de sensibilidade e 95,0 % de especificidade. Se o paciente estiver em uso de diuréticos, é um critério mais específico do que o de Light para classificar derrame pleural transudativo.
Critério do colesterol. Valores maiores do que 60 mg/dL classificam o líquido pleural como exsudativo.
Critério da bilirrubina total. Relação entre bilirrubina total no líquido pleural e soro maior do 0,6 classifica o líquido como exsudato.
 
   A dosagem isolada, no líquido pleural, de proteína total e densidade possui 10,0% de erro para classificação, sendo critério antigo que não mais deve ser utilizado.
 
   Cabe aduzir que, não deve fazer parte da rotina de nosso serviço a solicitação de radiografias convencionais de tórax após o procedimento de toracocentese. Radiografias convencionais de tórax, com incidências em póstero-anterior, em inspiração e expiração sustentada, e perfil, somente são indicadas com suspeita de complicações após o procedimento de biópsia pleural com agulha
   Concluímos afirmando que cada detalhe é importante, incluindo a colocação correta de anticoagulantes nos frascos, assim como uma história clínica minuciosa.
Referências:
 
1. NEVES DD, SILVA JUNIOR CT, CHIBANTE AM. Derrame Pleural. In: Pneumologia: Prática e Atual (Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Estado do Rio de Janeiro, org.). Rio de Janeiro: Editora Revinter; 2001. p.185-189.
2. SILVA JUNIOR CT, PESSOA CLC, CARDOSO GP, MONTEIRO NP. Prospective study – Meisels criteria for differentiation of pleural transudates from exudates. Eur Resp J 2003; 191.

Desenvolvimento Digital Net, Soluções em Internet Digital Net