Publicado em 5 set 2025
Safety and immunogenicity of investigational tuberculosis vaccine M72/AS01 in people living with HIV in South Africa: an observer-blinded, randomised, controlled, phase 2 trial
Título do Estudo
Safety and immunogenicity of investigational tuberculosis vaccine M72/AS01 in people living with HIV in South Africa: an observer-blinded, randomised, controlled, phase 2 trial
Fonte
TANDON, R. et al. Safety and immunogenicity of investigational tuberculosis vaccine M72/AS01 in people living with HIV in South Africa: an observer-blinded, randomised, controlled, phase 2 trial. Lancet HIV, v. 12, n. 8, p. e546-e555, ago. 2025. DOI: https://doi.org/10.1016/S2352-3018(25)00124-9
Contexto
A tuberculose (TB) permanece a principal causa de morbimortalidade entre pessoas vivendo com HIV (PVHIV), particularmente em países endêmicos como a África do Sul e o Brasil. Apesar do uso da BCG, sua eficácia é limitada contra tuberculose pulmonar em adultos. Nesse cenário, a vacina experimental M72/AS01 surge como candidata promissora, contendo proteínas recombinantes do Mycobacterium tuberculosis (Mtb32A e Mtb39A) associadas ao adjuvante AS01, já consagrado em outras vacinas. Ensaios prévios apontaram eficácia parcial (≈50%) em indivíduos HIV negativos, justificando a avaliação em PVHIV.
Metodologia
Ensaio clínico de fase 2, randomizado, controlado e cego para observadores, incluindo 400 PVHIV de 16–35 anos com HIV controlado em TARV (≥3 meses), CD4 ≥200 células/µL e carga viral <200 cópias/mL. Todos haviam completado terapia preventiva para TB. Os participantes receberam duas doses intramusculares da vacina ou placebo, com intervalo de um mês, e foram seguidos por 12 meses. Desfechos principais: segurança e imunogenicidade.
Resultados
O perfil de segurança foi aceitável, sem diferença relevante em eventos adversos graves entre grupos. Reações locais (dor em 83%) e sistêmicas (cefaleia, fadiga, febre) foram leves a moderadas e autolimitadas.
A vacina induziu respostas humorais robustas e respostas celulares CD4+ específicas ao M. tuberculosis, sustentadas até o final do seguimento (dia 390). Não houve indução significativa de células CD8, em linha com outras vacinas proteicas.
Participantes IGRA-positivos apresentaram resposta imune mais intensa (efeito de reforço), enquanto os IGRA-negativos mostraram perfil compatível com priming. Nenhum caso confirmado de TB ativa foi registrado durante o estudo.
Interpretação crítica
Os dados confirmam que a M72/AS0 é segura e imunogênica em PVHIV com doença bem controlada. Isso representa avanço relevante, pois a imunossupressão é o principal determinante de progressão da infecção latente para TB ativa. A ausência de casos de TB durante o estudo limita conclusões sobre eficácia clínica, embora o desenho não tivesse esse objetivo. A resposta predominantemente mediada por células CD4+ reforça a plausibilidade biológica de proteção, dado o papel central dessas células no controle da TB.
Entretanto, algumas limitações reduzem a generalização:
O rigor dos critérios de inclusão (tratamento preventivo prévio e exclusão de histórico de TB) provavelmente reduziu a incidência esperada de TB, dificultando a avaliação indireta de eficácia.
População restrita a PVHIV jovens, em TARV e imunologicamente estáveis; não reflete indivíduos com falha terapêutica, adesão precária ou diagnóstico recente.
Predomínio feminino (88%), podendo enviesar a extrapolação para populações com maior risco (homens adultos jovens).
Seguimento relativamente curto (13 meses) sem dados de eficácia sustentada ou impacto clínico.
O rigor dos critérios de inclusão (tratamento preventivo prévio e exclusão de histórico de TB) provavelmente reduziu a incidência esperada de TB, dificultando a avaliação indireta de eficácia.
Conclusão
O ensaio demonstra que a M72/AS01 apresenta perfil de segurança aceitável e induz respostas imunes robustas em PVHIV com supressão viral. Trata-se de um marco para inclusão dessa população em estudos de fase 3, ampliando o potencial impacto da vacina no controle global da TB. Contudo, permanece essencial investigar eficácia clínica, durabilidade da imunidade e aplicabilidade em cenários de maior vulnerabilidade imunológica. Caso confirmada, a M72/AS01E–4 pode se tornar a primeira vacina eficaz contra tuberculose pulmonar em adultos desde a BCG, representando um avanço crucial na redução da carga dual TB-HIV.
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Dr WALTER COSTA é médico pneumologista do serviço de Pneumologia do HUPE, UERJ.



