Publicado em 31 out 2025
A Multidimensional Diagnostic Approach for Chronic Obstructive Pulmonary Disease
Título do Estudo
A Multidimensional Diagnostic Approach for Chronic Obstructive Pulmonary Disease
Fonte
JAMA. Published online May 18, 2025. doi:10.1001/jama.2025.7358. COPDGene 2025 Diagnosis Working Group and CanCOLD Investigators.
Introdução
A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) é uma das principais causas de morbimortalidade no mundo. Os critérios diagnósticos tradicionais, baseados exclusivamente na presença de obstrução ao fluxo aéreo na espirometria (VEF₁/CVF <0,70), podem não identificar indivíduos sintomáticos e com alterações estruturais pulmonares precoces. Até metade dos fumantes sem obstrução espirométrica já apresenta enfisema ou espessamento brônquico na tomografia de tórax. O estudo COPDGene 2025, em colaboração com o CanCOLD, buscou validar um novo esquema diagnóstico que integra sintomas, qualidade de vida e achados tomográficos à espirometria, permitindo reconhecer formas iniciais da doença.
Métodos
Trata-se de um estudo de coorte multicêntrico, envolvendo duas populações longitudinais: COPDGene (EUA): 10.305 indivíduos entre 45–80 anos, fumantes atuais ou ex-fumantes, acompanhados por até 15 anos; e CanCOLD (Canadá): 1.561 indivíduos ≥40 anos, incluindo fumantes e não fumantes, acompanhados por até 14 anos. O novo modelo propõe critérios maiores e menores: critério maior — obstrução pósbroncodilatador (VEF₁/CVF < 0,70); critérios menores — enfisema e espessamento brônquico na TC, dispneia (mMRC ≥2), qualidade de vida ruim (SGRQ ≥25 ou CAT ≥10) e bronquite crônica. A DPOC é diagnosticada quando: o critério maior + ≥1 critério menor (categoria principal), ou ≥3 critérios menores, incluindo alterações tomográficas, mesmo sem obstrução (categoria menor). Desfechos analisados: mortalidade geral e respiratória, exacerbações e declínio anual do VEF₁.
Resultados
Entre os 9.416 participantes analisados no estudo COPDGene, aproximadamente 15% das pessoas sem obstrução espirométrica foram reclassificadas como portadoras de DPOC pelo novo modelo diagnóstico. Por outro lado, cerca de 7% das que apresentavam obstrução deixaram de preencher os critérios para a doença.
Os indivíduos recém-reclassificados mostraram maior mortalidade geral e respiratória, duas vezes mais exacerbações e queda mais acelerada do VEF₁ ao longo do acompanhamento, em comparação com aqueles sem DPOC. Já os que tinham obstrução ao fluxo aéreo, mas não apresentavam sintomas e nem alterações estruturais na tomografia, tiveram evolução semelhante a de pessoas sem DPOC. Este dado sugere que o critério antigo pode superestimar o diagnóstico nesses casos.
Esses resultados foram reproduzidos na coorte canadense (CanCOLD), onde os indivíduos diagnosticados apenas pelo novo modelo apresentaram risco duas vezes maior de exacerbações.
Conclusões
O novo modelo diagnóstico de DPOC, que integra espirometria, sintomas e imagem tomográfica, identifica precocemente indivíduos com risco aumentado de mortalidade e exacerbações, mesmo sem obstrução clássica. Simultaneamente, evita o diagnóstico em indivíduos com limitação espirométrica isolada e sem manifestações clínicas ou estruturais. Essa abordagem representa um avanço conceitual na definição da DPOC, aproximando o diagnóstico da realidade fisiopatológica e abrindo caminho para intervenções precoces e individualizadas.
Limitações e Mensagens do artigo
O estudo depende da disponibilidade de tomografia de tórax, o que limita sua aplicação em contextos de baixa complexidade. A classificação requer julgamento clínico para excluir causas alternativas de sintomas, como insuficiência cardíaca ou asma. Ainda assim, os achados sustentam que a DPOC não deve ser definida apenas pela espirometria, mas sim por uma avaliação multidimensional.
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Drª. Isabela Aziz – Pneumologista, médica do serviço do Quinta D’or e Copa D’or.



