Publicado em 16 ago 2025
Correlations between exercise oxygen consumption, lung function, image findings, and quality of life in adults with post-tuberculosis lung disease
Título do Estudo
Correlations between exercise oxygen consumption, lung function, image findings, and quality of life in adults with post-tuberculosis lung disease
Fonte
Chron Respir Dis. 2025 22:14799731251345492. doi: 10.1177/14799731251345492. PMID: 40404177; PMCID: PMC12099090. da Silva MPVL, da Silva Pinto PVL, Fonseca IMPP, de Lima LS, Carneiro AS, Costa W, Santos AP, Lopes AJ. Chron Respir Dis. 2025; 22:14799731251345492. doi: 10.1177/14799731251345492. PMID: 40404177; PMCID: PMC12099090.
Introdução
A tuberculose (TB) continua sendo uma ameaça global à saúde e, mesmo após o tratamento bem-sucedido, uma parcela dos pacientes desenvolve graves deficiências pulmonares, chamada recentemente de doença pulmonar pós-tuberculose (DPPT). Os dados epidemiológicos da carga global e da morbidade associada à DPPT ainda são limitados em razão da falta de prioridade dos programas nacionais de TB e da relativa complexidade da abordagem diagnóstica, que inclui, entre outros, avaliação clínica, radiológica e de função pulmonar. A DPPT pode ter um impacto acentuado na qualidade de vida (QV) dos indivíduos afetados, prejudicando a função pulmonar e reduzindo a capacidade de exercício. Embora os testes de função pulmonar (TFP) tradicionais—em especial a espirometria—sejam comumente usados como ferramentas de diagnóstico para avaliar o comprometimento respiratório após o tratamento da TB, eles não capturam o espectro complexo da DPPT. Além do mais, a prevalência dos achados de imagem na DPPT é altamente variável, e a relação entre os achados radiológicos e o comprometimento funcional não foi bem estudada. Muitos estudos que avaliam a carga da DPPT usaram TFP tradicionais como medidas substitutas para capacidade de exercício, sem olhar para o consumo de oxigênio (VO2) e a doença de pequenas vias aéreas (DPVA).
Métodos
Estudo transversal com pacientes adultos portadores de DPPT avaliados na Policlínica Universitária Piquet Carneiro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil. A DPPT foi definida como anormalidade respiratória crônica, com ou sem sintomas, atribuída ao menos em parte à TB pulmonar prévia. Neste estudo, as sequelas pulmonares foram definidas como quaisquer anormalidades em um ou mais das seguintes avaliações: sintomas clínicos persistentes, radiografia de tórax e espirometria. Foram incluídos os pacientes que finalizaram o tratamento da TB até 3 anos antes e que foram tratados para TB suscetível a medicamentos com cura bacteriológica. As medições foram feitas na seguinte ordem: avaliação da QV usando o World Health Organization Quality of Life (WHOQOL-BREF), mensuração do grau de dispneia usando a modified Medical Resource Council scale (mMRC), avaliação da função pulmonar por meio da oscilometria de impulso (IOS) seguida da espirometria e, finalmente, o teste de exercício cardiopulmonar (TECP). Adicionalmente, foram solicitados aos pacientes que trouxessem seu último exame de radiografia de tórax (RXT), o qual foi obtido em 54 deles.
Resultados
Dentre os 66 pacientes que foram avaliados para inclusão no estudo, 5 foram excluídos pelas seguintes razões: 3 por contraindicação ao TECP, 2 por alterações ortopédicas em membros inferiores impossibilitando o TECP e 1 por história de asma. Dentre os 60 participantes que foram incluídos no estudo, 34 (56,7%) eram mulheres. A média de idade foi de 55,1 ± 14,1 anos, enquanto a mediana do tempo desde o final do tratamento para TB foi de 24 (20–27) meses. Uma história de tabagismo foi relatada por 29 (48,3%) participantes, com uma mediana de carga tabágica nesses indivíduos de 25 (9–39) maços-ano. Enquanto 46 (76,7%) participantes tinham um mMRC de 0–1, apenas 14 (23,3%) deles tinham um mMRC de 2–4. Em relação à QV avaliada pelo WHOQOL-BREF, os piores domínios foram o físico e o ambiental.
Na espirometria, padrão obstrutivo, padrão restritivo e exame normal foram detectados em 24 (40%), 14 (23,3%) e 22 (36,7%) participantes, respectivamente. Na IOS, 49 (81,7%) participantes apresentaram exame anormal, sendo que o diagnóstico de DPVA foi detectado em 31 (51,7%) participantes. Na avaliação da RXT (n=54), os achados mais frequentes foram os seguintes: bronquiectasias (n=27, 50%), opacidades nodulares (n=27, 50%), e fibrose pulmonar (n=26, 48,1%).
Em relação ao TECP, os valores de tempo total e carga foram de 4,5 (3,6–7,5) min e 66,3 ± 26,8 watts, respectivamente. A média do VO2pico foi de 16,1 ± 6,8 ml/kg/min. Houve correlações positivas significativas do VO2pico com os seguintes parâmetros: altura, domínio físico do WHOQOL-BREF, CVF, VEF1, VEF1/CVF, FEF25-75%, reatância a 5 Hz (X5), reatância a 20 Hz, ventilação de pico, frequência cardíaca ao final do teste, tempo total do TECP e carga utilizada. Houve correlações negativas significativas do VO2pico com os seguintes parâmetros: idade, resistência a 5 Hz, diferença R5-R20, frequência de ressonância (Fres), e curva de reatância. Os homens tiveram um VO2pico maior que as mulheres. Os participantes com história de hipertensão tiveram um VO2pico menor que aqueles sem uma história de hipertensão. Os participantes com mMRC 0–1 tiveram um VO2pico maior que aqueles com mMRC 2–4. Na espirometria, participantes com padrão normal, padrão restritivo e padrão obstrutivo mostraram diferenças significativas em relação ao VO2pico. Na IOS, os participantes com DPVA tiveram um VO2pico menor quando comparados com aqueles sem DPVA. Em relação à radiografia torácica, apenas dois achados de imagem impactaram num menor VO2pico: cavitação pulmonar e opacidades nodulares. Entretanto, nenhuma diferença significativa foi encontrada no VO2pico em relação ao fato de ter feito ou não uma história de tabagismo.
Na regressão linear multivariada para o VO2pico, CVF, idade, sexo masculino e Fres foram as únicas variáveis independentemente preditivas, explicando 65% de sua variabilidade.
Discussão
A aptidão cardiopulmonar é considerada um sinal fundamental na avaliação da saúde cardiovascular, e o padrão-ouro para sua expressão é a VO2pico obtida ao final do TECP. A VO2pico medida nesta coorte (16,1 ± 6,8 ml/kg/min) esteve bem abaixo do que é considerado normal (35–50 ml/kg/min) para um adulto sedentário. A inflamação persistente, juntamente com as respostas desreguladas de cicatrização nos pulmões, leva ao acúmulo progressivo de tecido cicatricial, o que prejudica potencialmente a capacidade ao esforço. Importantemente, enquanto mais de 80% da amostra mostrou alterações na IOS, apenas cerca de 60% deles tinham uma alteração na espirometria, o que aponta a maior acurácia da IOS e a importância da incorporação dessa técnica na prática clínica quando avaliando pacientes com DPPT. Ainda nessa mesma linha, os pacientes com DPVA diagnosticada pela IOS mostraram uma menor VO2pico quando comparados àqueles sem DPVA, sugerindo que a DPVA pode ser um marcador de pior aptidão cardiopulmonar nessa população. De fato, as correlações foram mais fortes entre a VO2pico e os parâmetros da IOS do que entre a VO2pico e os parâmetros da espirometria. Na análise multivariada, apenas duas variáveis de função pulmonar entraram no modelo explicativo para a VO2pico: CVF e Fres. A CVF reflete o processo de cicatrização pelo qual os pulmões passam durante e após o tratamento anti-TB, com danos estruturais que acarretam deposição excessiva de colágeno e outros componentes da matriz extracelular. Por outro lado, a Fres—que é um marcador de DPVA correspondendo ao ponto de equilíbrio onde X5 cruza o eixo horizontal da frequência—pode denotar obstrução insipiente em pacientes com DPPT tanto por inflamação quanto por fatores imunológicos que podem induzir hiperresponsividade das pequenas vias aéreas.
Conclusão
Pacientes com DPPT apresentam um baixo VO2pico. Há uma relação entre VO2pico e mecânica pulmonar. Nestes pacientes, a IOS é capaz de capturar mais alterações da mecânica pulmonar do que a espirometria, incluindo aquelas que refletem DPVA. Há uma relação entre a VO2pico e as anormalidades radiográficas, especialmente com cavitação e opacidades nodulares. Assim, o uso tanto do TECP quanto da IOS pode auxiliar o monitoramento de pacientes com DPPT, incluindo a avaliação do impacto das intervenções.
Limitações
Trata-se de um estudo transversal, o que impossibilita estabelecer uma relação causa-efeito. Os autores não avaliaram a DLco nem a pletismografia corporal, o que poderia fortalecer os resultados em termos de correlação com aptidão cardiopulmonar. Os autores não avaliaram a extensão da doença na RXT, o que pode ter prejudicado o atingimento de correlações entre as anormalidades radiográficas e a VO2pico. Apesar destas limitações, esses achados podem servir como ponto de partida para melhor compreensão da reduzida capacidade funcional ao esforço em pacientes com DPPT, especialmente se aplicados em ensaios controlados randomizados no seguimento dessa população de pacientes e na avaliação dos efeitos da reabilitação.
Dr. Agnaldo José Lopes – Professor Associado de Pneumologia da UERJ



